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A voz selvagem no seu constante regresso

 

Resulta complicado para mim escrever sobre Zënzar sem repetir-me, porque desde que tenho constância de que existem sugirem-me as mesmas imagens, as mesmas sensações. Muito tempo se passou desde que deram os seus primeiros passos lá pelo final dos anos oitenta do século passado; houve câmbios na formação, algum membro da banda primigênia se afastou do caminho e também houve que chorar a desaparição de quem todo o mundo considera o fundador da banda (José Antonio Regueiro “Tabeaio”, falecido em Novembro de 2016) Também seria impossível concevir aos Zënzar sobre o cenário sem o Xosé Antón Bocixa ao microfone, mas foi o agora estreito colaborador do combo cerzedense, Javier Pardeiro “Reverendo”, quem primeiro se colocou nessa posição sobre as táboas (a dia de hoje prossegue a sua senda como cantautor)

 

Para mim, câmbios inevitáveis à parte, Zënzar são um fenômeno ligado a um território e umas circunstâncias, herdeiros de um marco histórico muito singular. Porque com efeito, nascem no povoado de Meirama, habitado por população deslocada da aldeia das Encrobas, e isso não faz falta que insista em que já marca per se. São esse ouveo guerreiro do indígena despossuído do seu méio, condenado a sobreviver ou desaparecer no desterro hostil. De facto, as agressões ao méio natural, à fauna, o choque cultural, estão constantemente presentes nas suas letras.

 

Também desenvolvem a construção da sua identidade artística numas terras onde o rock, o metal, o rap na nossa língua crescem sem intencionalidades sobre-atuadas, de uma maneira orgânica e natural, convivendo sem estridências com a tradição representada por gaiteiros, cantareiras ou cantos de reis. Viver os reis ou o entruido na Laracha, em Cerzeda, em Ordes, é uma experiência bastante à parte…não sei se devo dizer isto aquí, porque nada mais longe da minha intenção que provocar um “efeito chamada”, mais quem o experimentou sabe de quê falo.

 

Como digo, são essa voz rebelde no centro da vorágine depredadora capitalista que nos furta o méio e altera mortalmente a nossa relação com a natureza. São o despertar daquela rebeldia juvenil dos oitenta que pedia o rasgar das cordas de aço como alimento para resistir e crescer, e resistiu e cresceu em galego. Porque aí também está o ponto. “A culpa foi de Leño”, afirmam numa das suas letras mais populares, na que explicam como se meteram nesta guerra do rock and roll, e foi de maneira clara a isca que prendeu o lume…também foi um bocado culpa de Ilegales ou Siniestro Total; também um bocado de toda essa avalancha de rock, metal e punk que chegava maioritariamente do mundo anglo-saxão e se expressava em inglês…e, em definitivo, de uma cultura moderna, que não falava em galego. No seu caminho de rebeldia, decidiram processar tudo o recebido do mundo espanholfalante e do planeta anglo na língua dos seus antergos.

 

Fogindo totalmente de estrelatos absurdos, esta veterana banda abre-se caminho fazendo comunidade com a sua extensa legião de seguidores e seguidoras, com músicos de outros projetos com domicílio em Cerzeda e localidades próximas (o rapeiro Xenderal, a banda tradicional Os do Xalo, os metaleiros de Machina…) em perfeita coerência com como entendem a vida. Porque sim, a vida tinha que ser como a predicam os Zënzar com os seus factos.

 

Eles são o Bocixa na voz, Mário e Paco nas guitarras, Laura no baixo e Manolo na bateria, e fazem uma combinação de personalidades que se cristaliza em Zënzar. São povo nas suas vidas quotidianas além do local de ensaio, e tomam a palavra como Zënzar quando toca ascender ao palco. São uma soma de personalidades diversas que se engranam numa máquina de fazer melodias rockeiras. Mas o espírito Zënzar também salpica outras atividades musicais à margem da banda, como no caso da Laura na sua faceta de cartunista e ilustradora nas suas sessões de música e pintura para crianças com Paco (“Ramona Órbita, dona do tempo”) ou pondo a parte gráfica em projetos de literatura infantil, como “Madeira e metal” um relato maravilhoso da minha querida Laura Rey…ou como o Bocixa na sua teima de dinamizador social com iniciativas como a marcha anual pelas Encrobas ou o seu labor filmográfico sob o carimbo da Tingalaranga.

 

Afinal, Zënzar, além de ser uma para mim admirada banda de rock em galego, é tudo um conceito, toda uma forma de vida. E isso é todo um orgulho. Nunca lhes agradeceremos davondo que sejam como são…

Ramiro Vidal Alvarinho.

https://www.facebook.com/ramiro.vidalalvarinho

Foto cabeceira da man de https://www.cultura.gal/